A História de Capital Revelada – Parte I

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O limite do vazio, emoções tomando forma…

Conversando com uns amigos do CAF, decidi contar a história toda de como Capital Revelada veio a nascer. E ela é longa, chata e complicada, então devo dividir esse post aqui em algumas partes, eu acho.

Tudo começou em 2009. 2009 – eu, no terceiro ano do ensino médio, com 15 ou 16 anos, me preparando para o vestibular – não lembro direito em que mês a ideia dessa história começou, mas deve ter sido por volta do fim do ano. Naquela época, eu jogava quase que obsessivamente os jogos da série Devil Summoner: Raidou Kuzunoha (quem jogou percebe as semelhanças) em meio às provas para o ensino superior.

Pra começar, eu não passei pra UERJ. Foi desmoralizante porque eu não estudava. Vivia nos vidyas e nos animes e não estudava, deixava a vida me levar e vamo que vamo. Mamãe ficou puta comigo, lembro bem. Mas tudo bem, porque passei em quatro federais depois. Pra História, mas passei.

Naquela época, eu era apaixonado por uma Mulher Mais Velha. Chamá-la-ei de Mulher Mais Velha aqui para proteger a identidade dela. Ela deve ser uns cinco ou seis ou sete anos mais velha que eu e morava em outro estado, outra cidade. Eu a tratava como uma deusa e ela me tratava como um pajem. Ela abusou de mim emocionalmente, psicologicamente e fazia uns trecos que pareciam mais “sexual harassment” do que abuso sexual. Eu era menor de idade, ela fazia a minha cabeça. Eu fazia de tudo por ela – pensei em mudar de cidade para ficar com ela – e ela me criticava porque eu não me dedicava o suficiente a ela. Ela trepou comigo e me trocou por outro cara uma semana depois, literalmente uma semana depois. Ela me descrevia o que eles faziam em sua intimidade e ficava puta da cara quando eu dizia que não queria ouvir, porque “somos amigos, você deveria ficar feliz por eu estar feliz”.

Babaca.

Nessa época, duas pessoas na minha casa batalhavam uma dura depressão: meu pai, por estar desempregado e por ter sido proibido de encontrar amigas da época do colegial por minha mãe emocionalmente instável, e eu, porque alguma coisa deu problema na química do meu cérebro – provavelmente por causa do meu gênero e sexualidade, e lidar com isso nunca é fácil – e eu passei a viver a vida como se assistisse um VHS. Não tinha vontade de fazer nada. Não tinha vontade de sair pra nada. Viver era um aborrecimento. Só queria sofrer e me punir. Automutilação era semanal. Ideações suicidas, diárias. Tinha problemas com meus poucos amigos da internet e lidava com uma ex-namorada perturbada na vida real.

(Ela fingiu que se matou duas vezes para checar se eu gostava dela mesmo.)

(Eu era meio que um ímã de gente estranha.)

Então eu comecei a escrever. Já escrevia desde antes, mas a ideia de um rapaz que caça emoções parecia perfeita: eu tinha a ideia de que precisava urgentemente parar de sentir para poder lidar com o cotidiano. Tinha que parar de me importar com o meu pai chorando escondido, uma da manhã, me abraçando e dizendo que não sabia mais o que fazer. Tinha que parar de me importar com meus amores. Tinha que parar de me importar com tudo. Tinha só que me dedicar às provas e empurrar as coisas com a barriga, porque alguma coisa em algum momento tinha que melhorar. Se eu aguentasse até este momento, eu estaria a salvo.

(Este momento foi o meu casamento, 6 anos depois.)

Não é à toa que eu não lembro de muita coisa do período de 2009 pra 2011. Lembro que viajei para Gramado – primeira vez que eu andava de avião – em Junho de 2009… lembro exatamente de como me senti e do que fazia quando a depressão bateu… lembro das brigas dos meus pais, das noites quentes passadas tensas, mas… não consigo colocar nada em ordem, especialmente entre o segundo semestre de 2009 e o fim de 2010.

Velho, é muito ruim não ter memória. É muito ruim não conseguir botar as coisas na ordem. Confundo acontecimentos de 2010 com 2009 e esqueço do que eu fazia na época. Parece que vivi várias vidas: uma no cursinho de design gráfico, uma com as amigas na internet, uma com a família na depressão… nunca uma vida só. E a que ficou para mim, a que eu mais lembro, é a da depressão.

Então, comecei a escrever. O enredo era sobre um tal Nori Kurosawa e um Susumu Nakahara no Japão de 1922, se não me engano. Eles frequentavam o mesmo ensino médio e viviam perto. Susumu vivia uma vida normal, até que um dia era salvo de monstros por este misterioso delinquente que vivia roxo de pancada, esse tal Nori Kurosawa… Susumu vivia com os pais ausentes e Nori, com um médico mais velho – Minoru Himura – que também era versado nas artes místicas. Filho de uma mulher de fora do clã Akiyama, Nori ia em quando para reuniões do clã com suas primas Hoshi e Yuzuki Akiyama – esta última sua noiva prometida –, estudava alemão, ouvia jazz e se ocidentalizava cada vez mais, para o desgosto dos anciãos. Caçava kanjō, vivia ferido e só se importava com duas coisas: conquistar o amor de Himura-san e/ou terminar o serviço e morrer logo.

(É claro que Himura-san tinha outra amante também.)

A história não durou muito: tenho-a aqui, ela tem 48 mil palavras e era escrita mais como catarse de um jeito bem esquisito, bem minimalista, cheia de espaços em branco. Por favor se deliciem com a minha fantástica escrita em 2009:

No dia seguinte, não se espantou muito de ver Nori com um olho roxo e um curativo na sobrancelha, ainda que mancando e andando um tanto mais lento. Foi até ele, cauteloso, temendo que ele pudesse acabar caindo ou precisando de ajuda ou algo do tipo, sendo recebido com o já normal olhar de poucos amigos do rapaz.

— Nori-san, isso foi… Ontem?

Ele balançou a cabeça afirmativamente.

— Um kanjou?

Então, negativamente.

— … Brigou?

Confirmou, olhando para o alto, distraído.

— Com Himura-san.

Idem.

— Hm, já imaginava – Falou Susumu, torcendo a boca. – Ele não veio hoje. Por que vocês brigaram? Foi por causa da sua madrasta?

— Não é minha madrasta.

— … Não?
…!

Eu a deixei na gaveta por mais ou menos seis anos. Que bom, porque estava uma merda.

A ideia de trazer Nori e Susumu de volta à escrita ia e voltava sem nunca tornar-se firme. Isso é, até eu começar outra série (também defunta, natimorta) que eu vou chamar de Tetralogia da Pescadora, esta tendo começado em 2011 ou 2012 e tendo terminado em 2013.

Mas isso é pra outro post.

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Um comentário sobre “A História de Capital Revelada – Parte I

  1. Pingback: A História de Capital Revelada – Parte III – A Capital Republicana

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