Sobre respirar

A maior dificuldade nesse lance de escrever, eu acho, é qualquer coisa, exceto escrever.

Vejo muitos escritores (ou aspirantes a tal) dizendo que escrever é um martírio, que você tem que remexer nas suas feridas mais interiores, que os personagens não te obedecem, que a verdadeira arte é sofrida, que os inúmeros bloqueios tiram o sono, por aí vai. Pra mim isso não acontece porque escrever é minha alegria. Escrevo porque é meu hobby, porque é o ofício que escolhi para me aprofundar, porque é a arte que mais gosto e que também posso produzir. Escrever me faz bem: me deixa mais feliz, mais relaxado e mais bonito. Por isso tenho uns 5 originais na gaveta aqui, e todo ano aparecem mais dois ou três.

O problema desse processo é respirar.

É quando você termina, revisa, compra a capa, manda pra um revisor, fica feliz e, sei lá, põe na Amazon ou manda imprimir (como independentes que somos), e aí manda para blogs, para parceiros, para amigos e espera.

E respira.

Se escrever é difícil porque cavucamos a nossa alma e nossas feridas para botar no papel, então deixar que alguém leia isso é ainda mais difícil (mas, claro, nunca vi nenhum dramático escritor falar algo do tipo). Em Capital Revelada, como já contei, o leitor se depara com algumas coisas bem pessoais minhas: minha depressão, minhas ideações suicidas, minha história com a Mulher Mais Velha, que inspirou a Tatiana, e a minha história com a Menina Que Sumiu, que inspirou a Milena. Tudo isso é muito pessoal e ainda dói em mim – de vez em quando me pego pensando “se aquela filha da puta não tivesse estragado a minha vida, não tivesse destruído a minha autoconfiança, não tivesse me feito me sentir um merda; se aquela desgraçada não tivesse abusado tanto de mim, talvez eu fosse hoje alguém melhor comigo mesmo e com os outros”. (É isso que o Marcos certamente pensa, também)

É difícil respirar sabendo que as pessoas lerão a sua pessoa de peito aberto.

Respira.

É apavorante. Não dá pra respirar.

E aí eu pensei: “é só escrever algo que não seja tão pessoal assim”, mas tudo é pessoal. Tudo me foi moldado por essas experiências. Me falam: “quem vive de passado é museu, você pode tomar as rédeas da sua vida, não se deixe definir pelo seu passado”, mas é difícil.

Eu acho que só não gosto de me expôr, e escrevendo e publicando alguma coisa eu acabo me expondo. Penso que, se pudesse publicar tudo anonimamente – sob um pseudônimo, sob uma máscara – as coisas seriam melhores, eu acho, mas aí logo juntariam os textos ao nome, ao pseudônimo, que seja, e esta persona criaria uma personalidade, uma história, uma firmeza no espaço-tempo.

Escrever e publicar é ao mesmo tempo a luta para não ser esquecido e também para não se definir por isso, eu acho.

Respira.

Eu ainda tenho medo de deixar ir.

Quando você põe um texto no mundo, ele não é mais seu. Você pode morrer e as pessoas continuarão lendo e interpretando, sem saber direito o que é isso que você quis dizer, sem entender por que você colocou isso em tal lugar, por que aquele personagem morre?, por que aquela personagem é assim?, e simbolismo, tem algum? A escola da crítica literária da Morte do Autor, do crítico francês Roland Barthes, diz que o ideal é interpretar a escrita sem se preocupar com biografia do autor ou algo do tipo, porque isso não poderia e nem deveria atrapalhar a interpretação pura do texto; Jorge Luis Borges escreveu um conto em formato de resenha chamado Pierre Menard, Autor do Quixote, em que ele analisava este autor fictício que queria escrever um livro que fosse igual, palavra por palavra, ao Dom Quixote de Cervantes; o narrador, ao comparar as biografias de cada autor e tentar encontrar influências sobre a obra, cria duas interpretações completamente diferentes do Dom Quixote. A interpretação do próprio autor seria só uma de várias igualmente válidas.

Isso significa que, quando o texto nasce, as pessoas vão interpretar o que quiserem dele. Então eu penso, até com raiva, que diabos é o significado disso tudo? Por que eu vou abrir o meu coração na escrita se ninguém nunca vai entender cem por cento o que eu queria que entendessem? Qual o significado, por que importa? De que importa escrever e publicar? Só eu vou poder ler o que escrevo do jeito que eu quero.

Isto é uma pirraça.

Eu ainda não aprendi a deixar ir.

Respira.

Eu não sei nem mais do que estou falando ou qual era meu objetivo quando comecei a escrever isso no Bloco de Notas.

De qualquer jeito, ninguém vai poder tirar o que é meu: minha interpretação de mim mesmo, do que eu escrevo, do que eu faço.

Quando eu terminei meu primeiro namoro, lá em 2007 – eu tinha 13 anos -, eu pensei: tudo bem. Eu ainda tenho a minha escrita.

Respira.

Estou me sentindo melhor.

(Eu deveria ter o direito de desaparecer, também.)

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