A História de Capital Revelada – Parte II

CR-capa-menor
Olhos que o encaram do negrume, o espectro de um garoto há muito morto, uma realidade oculta…

No último post, vimos como nasceu o primeiro draft de Capital Revelada. Nesse, veremos como nasceu o segundo. Parei falando da Tetralogia da Pescadora, então vamos lá…

A Pescadora era uma mulher sem nome que nasceu por volta de 1930. Em 1962, ela trabalhava no pesqueiro Itapu e partiu desta para a melhor ao encontrar um navio fantasma: o Baependi, afundado durante a Segunda Guerra Mundial. Só que ela não morreu de verdade de verdade. A alma falhou em sair e ela se tornou uma morta-viva, um corpo congelado no tempo com surtos de vida e morte, sem envelhecer, sempre acompanhada pelo fantasma de um garoto que morreu com ela. Ela se veste sempre com sobretudo, boina e luvas de couro – mesmo no calor infernal do Rio, já que ela não produz o próprio calor –, fazia serviços de “caça-fantasmas” e era completamente maluca e suscetível a morrer de novo e de novo, várias vezes, das formas mais estranhas, apenas para acordar cinco minutos depois com tudo no lugar e um sorriso no rosto.

Nori– agora como Marcos – apareciam segunda parte em diante da Tetralogia da Pescadora. Marcos agora não podia ver fantasmas e morava com o avô, este que era assombrado por uns espíritos ruins aí, e buscava ajuda da Pescadora para resolver seu problema. Depois disso, ele contava sua história para o namorado-amante-peguete-maridão mortal da Pescadora, o Fotógrafo: a mesma história de sempre, só que desta vez pelo ponto de vista do Marcos.

E o Susumu – agora Luiz – morria no meio da história. Ele não aparecia como pessoa em nenhuma das partes da Tetralogia da Pescadora. Ele já estava morto antes da história começar. Aqui um pedaço da midquel contada primariamente em primeira pessoa pelo próprio Marcos:

Me deixou pra morrer! Nos deixou pra morrer! Aquele desgraçado!

E aí, seu Siqueira, e aí-

Eu senti tanta, mas tanta raiva, tanta tristeza, tanto ódio daquilo tudo, tanta confusão que-

Que eu estraguei tudo, seu Siqueira!

Eu odiava tanto ele, seu Siqueira, mas tanto, tanto, que as cordas me apertaram mais forte ainda e eu cuspi sangue, botei só o ácido gástrico pra fora de novo e achei que ia morrer, e seria bom eu morrer lá mesmo porque ao menos o candjô sumiria, mas não, eu não morri e até consegui alcançar com a ponta dos dedos o meu facão no meu bolso e forçar contra uma das cordas. Mas o candjô não ficaria estático para sempre. E não ficou.

O Luiz ainda estava assustado com o que tinha acontecido. Eu não consegui gritar para ele sair correndo. E os milhões de braços do meu ódio esmagaram ele.

Foi tão rápido, seu Siqueira, você nem imagina- quero dizer, imagine só ver o seu amigo, o seu único amigo, o seu melhor amigo lá, porque você o botou lá, e você mesmo mata ele porque você não conseguiu controlar as suas emoções-

Imagina só, seu Siqueira, primeiro ele estava lá, e depois ele estava derrubado no chão, com metade da coluna pra fora, olhando horrorizado as pernas dele separadas do corpo, e ele olhou pra mim, seu Siqueira, olhou pra mim com uma cara que dizia “socorro”, e eu não pude fazer nada. Ele morreu com outro golpe no pescoço.

O Luiz morreu e a culpa foi minha. Eu nunca me perdoei por aquilo. Todos os dias eu imagino que ele vai me ligar, me chamar pra sair, sei lá. Mas ele está morto.

Uma nota: “ele” é o pai de Marcos, Galvão Castelo Branco, um personagem scrappeado que não existe em Capital Revelada na versão final. A ideia era que ele teria abandonado o garoto muito novo, depois de ver a esposa caçadora, Vanessa Kurosawa, morrer. Quem existe agora e morreu é Galvão Akiyama, e quem está viva e não aparece no texto é Vanessa Castelo Branco. Meio que troquei o pai pela mãe, mas as personalidades também mudaram de leve.

De qualquer jeito, a vilã da Tetralogia era Yuzuki – agora Camila – que, após tanto evitar sentir e ter emoções, criou um vácuo dentro de si e puxou para si um candjô que a possuiu, matou seu corpo e passou a viver como se fosse ela. Hoshi – então Milena – ainda existia, e tinha o mesmo papel de antes: ser a prima fofinha e adorável mais nova de Marcos.

Perto do fim da Tetralogia, Marcos morria com um soco que transpassava sua nuca e saía pela boca dado por um homem imortal, como a Pescadora, que tinha sequestrado “Camila”. Este homem morria quando “Camila” cortava sua cabeça momentos após ter assassinado Marcos. E Milena morria ao atacar “Camila”.

“Camila” trazia o fim do mundo e a Pescadora trocava sua imortalidade e memórias por resetar esses acontecimentos.

Mas eu amassei e joguei fora de novo.

Assim parecia que Marcos e Luiz nunca teriam um canon.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s