Sobre estilo

Para mim, como você faz um texto é tão importante quanto seu conteúdo, seu enredo, porque mesmo uma história porca pode ser escondida atrás de um estilo e uma estética brilhantes, e mesmo o mais sensacional dos enredos não sobrevive a um estilo e estética medíocres ou que só não batam com o leitor.

Eu nunca li O Senhor do Anéis. Sabe por quê? Porque o estilo não me agradou. Não sobrevivi aos primeiros Bilbos Bolseiros. Tenho a política de abandonar um livro ao notar que pensar nele não faz meu coração bater forte; em KonMariano, não me traz felicidade. Há livros que devorei em uma mordida só – posso citar a minha Triforce, que é composta de Rosario Tijeras de Jorge Franco, A Criança Roubada de Keith Donohue e Deuses de Pedra da Jeanette Winterson – e há livros que foram devagar mas sempre e se tornaram também grandes favoritos – como Popular Hits of the Showa Era de Ryu Murakami e Caçando Carneiros do Mumuzinho – mas os que não fazem meu coração palpitar são aqueles que eu vou lendo meio que de obrigação e acaba que é aquele chove-não-molha de três, duas estrelas no Goodreads.

(Os livros muito ruins também fazem meu coração pular, mas é de raiva/tanto rir.)

A parte interessante é que esses três livros da minha Triforce têm enredos que não são muito grandiosos ou minuciosamente trabalhados, mas eu me apaixonei pela forma que são escritos. Aqui vou passar citações aleatórias dos três, para você ter uma ideia:

A_CRIANCA_ROUBADA_1254083396BSpeck conseguiu, tenho certeza, ir daqui para lá, e vivia em uma costa rochosa, tendo o Pacífico brilhante por companha diária, apanhando mexilhões, mariscos e caranguejos nas poças da maré, dormindo na areia. Devia estar marrom como uma avelã, seus cabelos um emaranhado de nós, os braços e pernas fortes como cordas, de tanto nadar no mar. Em um único suspiro, iria exalar a história de sua jornada através do país, os pinheiros da Pensilvânia, os campos de milho, aveia e soja do Meio-Oeste, os girassóis do Kansas (…). Pg. 357.

 

deusesEste é um momento no tempo, e minhas escolhas não foram mais estranhas do que as de milhões de outras pessoas antes de mim, gente deslocada por guerras com as quais não concordam, deixando o conhecido pelo incógnito, hesitantes, temerosas. Viam-se depois já a caminho, com a trilha marcada pelas pegadas e pela memória: o que já tinha, o que perdeu, o que encontrou, não importa o quanto fosse difícil ou impossível, o momento em que o tempo se transformou em uma ponte e você a atravessou. Pg 117-118.

 

rosarioFoi ela que nos livrou dessa adolescência que já rapazes resistíamos em abandonar. Foi ela que nos jogou no mundo, que partiu nosso caminho em dois, que nos mostrou que a vida era diferente da paisagem que tinham pintado para nós. Foi Rosario Tijeras que me fez sentir o máximo que um coração pode bater e me fez ver meus antigos desamores como conversa fiada, para me mostrar o lado suicida do amor (…). Pg. 84.

Vê? Além das opções de tempo verbal e pessoa, vemos que cada escritor tem um estilo muito próprio, muito seu. Eles escolhem focar em detalhes diferentes em momentos diferentes, em sensações e sentimentos diferentes, em temas diferentes. E certamente, se a Winterson decidisse reescrever Rosario ou Criança, sairia algo bem diferente.

Eu acho isso essencial.

Eu diria que a literatura é como pintar um quadro com palavras. Contar uma história qualquer um pode, mas pintar um quadro com palavras requer técnica, estudo, treino e refino. É como a diferença do jogador de pelada para o jogador profissional de futebol. A diferença entre eu e Caique. É, bem, a diferença entre alguém que não leva a sério e alguém que se dedica.

Por que é importante ter um estilo? Primeiro, para deixar seu texto mais característico, mais seu, e ajudar a passar o que você quer passar para o leitor: não tornar o texto seco, bege, e sim conseguir transmitir uma sensação, um sentimento ou uma imagem para o leitor imaginário em vez de só tacar nomes e ações uma atrás da outra. Depois, porque seu enredo pode ser muito foda demais pra caralho, você pode ter todo o outlining e o plotting pronto, toda a Jornada do Herói preparada, mas o leitor não sabe disso e você não pode exigir que ele leia só mais um pouquinho, prometo que depois da página 60 fica bom, eu juro, enquanto nada o segura na história.

O estilo é a primeira coisa que o leitor vai ver. Não é o seu gancho, não é a reviravolta, não é o cruzamento do primeiro portal, não é o chamado da aventura, porra, não é nem o protagonista – que ele só vai conhecer melhor depois de uma lida –, é o estilo. Se o estilo conseguir segurar o leitor, ele lerá com felicidade no coração e se afeiçoará aos personagens e gg izi. Se o estilo não conseguir segurar mas for decente, o leitor lerá meio que indo mais ou menos e isso pode atrapalhar um pouco o envolvimento emocional dele com a trama. Se o estilo for insuportável, ele ou nem terminará de ler o seu livro ou terá reações emocionais negativas.

Pense no estilo como um vidro de uma janela que fica entre o leitor e a cena – de um jardim, de uma batalha, de uma noite sem lua. A cena é o conteúdo, o total, e o vidro da janela é a lente pela qual o espectador verá a cena. Asimov falava disso em Asimov on Science Fiction (já li esse livro aproximadamente quatro mil vezes) para se defender das acusações de que ele não tinha estilo. Tinha, defendia-se o Bom Doutor. Só que não era como um vitral, bonito e complexo por si só, mas tornando difícil o entendimento da cena. Era como um vidro transparente, mais difícil de ser feito do que o vitral e menos apreciado, mas deixava enxergar a cena com perfeição. O argumento de Asimov era que muitas vezes um estilo excessivamente floreado mais atrapalha do que ajuda a escrita – é o que chamamos de prosa roxa – e que um estilo simples e direto pode muitas vezes ser o ideal. Mas aí vai de você, do que você prefere fazer. Prefere dar foco em alguns pontos e não em outros da cena? Vai em frente. Prefere deixar tudo com um sentimento sem fim de melancolia? Do it. Prefere já determinar a personalidade de alguém abrindo o livro com a frase “Odeio suar” (The Naked Sun, 1957)? Faça isso. Mas seja consciente do estilo.

Porque às vezes o que chama atenção não é nem a premissa: é o estilo do autor. Eu compro e leio (quase) todos os livros do Murakami não porque me apaixono perdidamente pelas premissas – ai meu Deus, eu preciso comprar esse livro sobre um cara que sonha em fazer estações de metrô, eu preciso ler esse romance sobre um cara e uma menina que se mata, eu preciso ler essa história sobre a busca de um carneiro – mas porque eu já me apaixonei pelo estilo dele há muito e gosto do que ele me faz sentir. Semelhantemente, não li O Nome do Vento por causa da premissa – na real nem sabia qual era ela quando comprei – mas sim porque eu li o prólogo e me apaixonei por aquele estilo que depois descobri que não acompanharia o resto da narrativa, mas tudo bem porque me apaixonei pelos personagens, e agora eu meio que pouco me importo para o enredo: só quero saber se Bast e Kvothe vão trocar juras de amor no terceiro livro.

Então, minha dica é: atenção para o estilo. Não é questão de saber usar a última flor do Lácio, inculta e bela, ou não. É questão de saber o que – que detalhes? Que informações? No que você vai focar? – e como – primeira pessoa ou terceira? Qual passa melhor a ideia da sua história? Passado ou presente? Frases curtas ou longas? Narrativa pessoal ou impessoal? – contar.

Porque uma história não é feita só do conteúdo. Ela também tem a forma, que é indissociável desse primeiro.

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4 comentários sobre “Sobre estilo

  1. “O estilo é a primeira coisa que o leitor vai ver. Não é o seu gancho, não é a reviravolta, não é o cruzamento do primeiro portal, não é o chamado da aventura, porra, não é nem o protagonista – que ele só vai conhecer melhor depois de uma lida –, é o estilo.”

    Perfeito!

    Assim que li o título do artigo, já me veio o Nome do Vento na cabeça. Fiquei feliz em ver que vc também lembrou dele 😀

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    1. O estilo de O Nome do Vento é muito agradável e tranquilo, só que eu admito que queria mais coisas terrivelmente poéticas como as partes dos Silêncios em três partes hahaha isso compensa pelos personagens wacky :B

      Valeu!

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  2. Edi Boff

    Olá, através do blog do Thiago Lee vim cair aqui no seu…rsrsrs…gostei deste texto e da sua história. Gosto de escrever nas horas vagas, e por isso procuro textos que me ajudem na internet. Pode apostar que o seu ajudou! :*

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