Meu migué favorito – Notan

Todo mundo tem uma técnica, um jeitinho, um macete para facilitar a escrita ou o desenvolvimento de qualquer coisa: personagens, mundo, estrutura, estilo, estética, que seja. Hoje, quero falar um pouco de um padrão – entre vários – que notei na minha técnica de criar personagens: o notan.

Notan é um nome que descobri enquanto lia Além dos olhos grandes, de Ana Carolina Pereira. Este é um livro-mangá que fala um pouco da história e técnicas dos mangás, muito recomendado para quem curte o assunto. Ela fala do notan assim:

Nos personagens parceiros ou antagonistas predomina o notan, citado pelo pesquisador Amaro Braga Júnior. É uma situação de equilíbrio entre claro e escuro, quente e frio, calmo e agitado. Isso se reflete nos visuais e personalidades dos personagens que interagem muito entre si.

É semelhante à trope de Red Oni, Blue Oni, mas tenho a impressão de que a trope trata mais de personagens que partem de arquétipos – o quente e o frio, o extrovertido e o introvertido, o brawl e o brain, o vermelho e o azul, o espadachim e o arqueiro, e por aí vai – enquanto o notan indica o contraste e o equilíbrio (além de ser um nome bem mais curto). Notan também é um negócio mais visual: a Wikipedia o descreve mais ou menos como “um conceito de design japonês envolvendo o uso e o jogo de claro e escuro quando são postos próximos um do outro na arte”.

Vocês já devem ter notado algo assim nos seus mangás e animes favoritos. Vou dar um exemplo de um jogo que estou re-jogando agora, pela enésima vez: Tales of Phantasia. Esses dois carinhas abaixo são melhores amigos – o loiro é o protagonista e o cabeludo serve como deuteragonista depois de um tempo.

Cress_Status_(ToVS)

Cless Alvein: espadachim. Cabelos curtos e loiros, com franja. Olhos grandes (nessa arte chega a nível uguu). Usa armadura. Esquema de cores monocromático + quente. Otimista, bondoso e calmo, dificilmente parte pra porrada sem pensar antes. Meio tímido e pouco agressivo. Quando numa briga, costuma ter um papel passivo – é o cara que abaixa a cabeça e diz “mas…” e que cede logo.

Chester_Status_(ToVS)

Chester Barklight: arqueiro. Cabelos longos e azuis, em um rabo-de-cavalo, todos para trás. Olhos amendoados. Sem armadura. Esquema de cores frias e pouco saturadas. Pessimista, cabeça quente e impulsivo, se mete em brigas que sabe que não consegue vencer. Agressivo consigo mesmo e com os outros quando irritado. Tem papel ativo nas brigas: é quem grita e acusa.

Você pode ver essas diferenças tanto de personalidade quanto de design em outras duplas de protagonistas, deuteragonistas ou protagonista/deuteragonista: Asuka e Rei de Evangelion, Edward e Alphonse Elric em Fullmetal AlchemistSasuke e Naruto em Naruto, Tifa Lockhart e Cloud Strife em Final Fantasy VII, Kazuhira Miller e Big Boss em Metal Gear Solid: Peace Walker, Mario e Luigi na franquia Super Mario, por aí vai. Dos nacionais, posso ainda arriscar falar de Marko e Filip, de Réquiem para a Liberdade do Thiago Lee, Tito e Raul de Lobo de Rua da Jana P. Bianchi e até mesmo Protagonista e Cacá em Limbo do Thiago d’Evecque (nesse último, protagonistas mais contrastantes não há). E, claro, puxando a sardinha para o meu lado: Marcos Akiyama e Luiz Azevedo, de Capital Revelada.

O meu migué é esse: meus protagonistas/deuteragonistas costumam seguir o notan, às vezes inconscientemente, às vezes conscientemente. Acho que é uma boa forma de ajudar a desenvolver os personagens: a relação se torna não somente leitor-personagem, mas também leitor-personagem-personagem-relacionamento dos dois anteriores. O leitor pode não se interessar por um personagem individual – pior ainda se for o protagonista – mas pode se interessar pelo deuteragonista ou pelo relacionamento dos dois.

Às vezes o relacionamento é tão ou mais interessante que o personagem sozinho. Relacionamentos entre personagens contrastantes entre si significam conflito e conflito é o que faz as coisas andarem – seja permitindo que o leitor veja facetas desconhecidas dos personagens, seja fazendo o enredo andar por qualquer motivo, seja criando plot points importantes para o futuro (ou um romance DA HORA e que renda, que não morra depois dos personagens ficarem juntos porque ainda há conflito em suas personalidades e ainda é interessante acompanhá-los). O negócio é: não temam conflito entre seus protagonistas. Isso geralmente torna a trama bem interessante.

Esse é o meu migué favorito. Depois falo mais dos outros que também gosto muito, como o Star System à Tezuka.

Referência bibliográfica:

PEREIRA, Ana Carolina. Além dos olhos grandes: um estudo em mangá sobre mangá. Edição independente. Curitiba: 2014.

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5 comentários sobre “Meu migué favorito – Notan

  1. Não conhecia o termo, apesar da (do?) trope ser bastante recorrente.
    Como você classificaria em casos de três personagens ao invés de dois? (Harry Potter por exemplo). Vejo o Notan nesse caso como Harry e Hermione, mas onde Rony se encaixaria nisso?

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    1. Hmmm… eu fiquei pensando nesse negócio de 3 ontem. Acho que, no caso, se houver um grande contraste entre os três – não li HP e nem assisti os filmes, queimem-me na fogueira, então não sei dizer a dinâmica deles – acho que também se classifica como um tipo de notan, só não tão explícito e forte quanto o em dois.

      Mas, se o importante é criar contraste e conflito entre os personagens, não vejo por que não poderia existir um tipo de notan entre os três. Existem vários tipos de arquétipos de trio, vide As Meninas Superpoderosas – contrastantes entre si em aparência e personalidade – ou as várias possibilidades daqui:

      http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/PowerTrio

      Acho que o importante é ter como fazer o grupo entrar em conflito. Estou assistindo agora um anime chamado Osomatsu-san, que trata de sêxtuplos (!) com personalidades radicalmente diferentes, mesmo que os designs sejam quase exatamente iguais. Com um pouco de cuidado, dá pra criar notan com grupos.

      Mas se não existe contraste entre dois de três membros de um grupo, então acho que não há notan com esse personagem, mesmo.

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      1. Já leu MPD Psycho? Não sei se estou “esticando” o significado trope mais do que o devido, mas nesse mangá o protagonista tem um Notan múltiplo com ele mesmo. Só lendo pra entender =P

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  2. Ótimo post! Explicou a trope de forma fácil e prática.

    Sobre essa história do trio, não lembro o nome técnico, mas os dois outros personagens representam “o anjinho e o diabinho” no ombro do protagonista ou duas partes diferentes da personalidade dele — a Hermione seria o lado racional e arrogante do Harry, e Ron a contraparte emotiva.

    Pelo menos é um modo de interpretar a trope.

    Quero mais posts nesse estilo 🙂

    Abraços

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