[RESENHA] Lobo de Rua – Jana P. Bianchi

lobo

Título: Lobo de Rua
Autoria: Jana P. Bianchi
Editora: Independente
Nº de páginas: 78 (segundo a Amazon)
Gênero: Fantasia urbana
Nota: ★★★★★

 

 

Essa é uma novela sobre homens, lobos e luas.

Raul é um morador de rua, um homem invisível e desgraçado como tantos os outros. Como se sua desgraça não fosse suficiente, Raul contrai a maldição da licantropia, tornando-se um lamentável lobo de rua. Tito Agnelli não compartilha do abandono de Raul, mas conhece muito bem a sensação de ser rasgado por dentro, todos os meses, pela coisa vil que se abriga nele. Assim, compadecido com o sofrimento do recém-transformado, Tito acolhe Raul na Alcateia de São Paulo, extinta até então por falta de lobisomens residentes na Pauliceia. Depois de décadas de contaminação, Tito conhece cada detalhe da maldição que o transforma em lobisomem. Além disso, conhece também a Galeria Creta, um lugar em São Paulo onde ele e outros dos seus são bem vindos nas noites de lua.

Basta pagar o preço.

Estou escrevendo agora que terminei de ler pela segunda vez e estou NUMA BAD, MEU IRMÃO………….

A primeira coisa que você tem que saber é que a Jana tem um estilo muito característico, muito próprio, muito cruel e realista. Ela não tem papas na língua e nem hesita em falar das coisas nojentas e ruins da vida, e vou admitir que isso me espantou um pouco de começo – “que estilo rude!”, pensei enquanto lia a narrativa falando de dores, de priapismos, de diarreias, de odores, de sujeira, de violência, de violações. Superado o choque inicial, prepare-se para uma fantasia urbana MUITO MANEIRA.

A história segue Raul – um pobre menino de rua infectado por uma doença terrível, jogado à própria sorte – e Tito, um imigrante italiano que resgata o garoto e revela que ele é um lobisomem, na São Paulo contemporânea. Tito é o meu cara favorito nessa história: um tipo de tutor, lobisomem viajante, desbocado, teimoso e sábio, que na verdade tem um coração de ouro, e é um poço de conhecimento. É ele que forma uma “alcateia de dois” com Raul, ele que o ensina a ser um lobisomem: e ensina isso com uma cientificidade fantástica, explicando tintim por tintim, de forma que a licantropia torna-se algo ao mesmo tempo crível e mágico.

As descrições das mudanças, do que ocorre com o corpo, quando ocorre, as habilidades, cada dorzinha, cada pressão, cada pensamento sujo – tudo é minuciosamente explicado, e a transformação é o mais “natural” possível: no mundo de Jana, não é “homem cresce, fica peludo, rasga camisa, ROAR! E sai pela encruzilhada”; é mais “agora os dentes estão enormes. Agora seus ossos estão doendo. Agora, a coluna está se realinhando. Calma que piora”. Torna tudo mais despretensioso, mais comum, mais humano.

Também há bastante desenvolvimento do mundo criado pela Jana: vários relatos de lobisomens e caçadores deles, de outras criaturas mágicas que existem; há toda uma literatura especializada e estudos sobre licantropia neste universo, que tornam a coisa ainda mais interessante e verídica. As descrições de Sampa também são bem coloridas, no sentido que até um carioca da gema como eu pode imaginar a cidade mesmo só tendo a visitado algumas vezes.

Acho que a palavra que eu usaria para descrever Lobo de Rua é “confortável”. Não confortável no sentido de ser uma leitura tranquila – porque, como eu já disse, você vai ler sobre mijo e sobre dores e sobre coisas complicadas acontecendo – mas o mundo e os personagens se mesclam tão bem na vida real que não há nenhuma dificuldade de imaginar que isso poderia estar acontecendo agora mesmo. Raul pode existir, Tito pode existir, e eles podem estar agora mesmo em São Paulo, entende? Não há nada grandioso ou absurdo que quebre a suspensão da descrença. E isso é a marca de uma boa fantasia urbana despretensiosa.

O que me deixou um pouco frustrado foi que o livro é muito curto! A história de Raul e Tito tem início, meio e fim, mas mais ou menos na metade do livro ela meio que desvia para a de Bruna e Téo, dois amigos que vão ver uma cigana. Téo tem algo de especial, que não fica muito claro em Lobo de Rua, deixando um gancho para a continuação que vai vir. Apesar disso, senti que esta parte não harmonizou muito com a história de Raul e Tito (mesmo tendo pontos importantes como citações ao Minotauro). Porque ela é MUITO forte, muito emocionante, e ao menos eu me sentia não querendo parar de ler tão cedo esses dois personagens.

E eu não posso nem mais pedir por Mais Raul e Mais Tito, porque coisas acontecem.

Se este é o tipo de literatura indie que o Brasil está produzindo, então que venha mais, porque faz muita falta e é muito bem-vinda!

O livro pode ser adquirido nas versões física e digital.

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